Flávio Miguez comenta acidentes em túneis hidráulicos no Brasil

O livro “Patologia de túneis hidráulicos”, publicado pela Oficina de Textos, analisa importantes acidentes e incidentes com túneis hidráulicos ocorridos no País.

O livro Patologia de túneis hidráulicos: acidentes e incidentes no Brasil é uma obra particularmente importante para engenheiros civis, geólogos e profissionais envolvidos com o projeto e a execução desse tipo de obra.

De autoria de Guido Guidicini, Flávio Miguez de Mello e Newton dos Santos Carvalho, 11 casos de acidentes e incidentes em túneis hidráulicos no País são discutidos, analisando os erros ocorridos e as lições aprendidas em cada caso.

Furnas (MG): o acidente em túneis hidráulicos no Brasil mais importante

Flávio Miguez considera o acidente em Furnas (MG) como o caso mais emblemático dos retratados na obra. Ocorrido durante a construção da Usina Hidrelétrica de Furnas, entre o fim de 1950 e o começo de 1960, o acidente aconteceu em um contexto político e social complicado: a Região Sudeste enfrentava um importante período de seca, fazendo com que os reservatórios de água tivessem um volume menor que o ideal. Além disso, os recursos humanos que seriam necessários para a obra também eram escassos na época. “Mesmo assim, a usina de Furnas não poderia atrasar”, lembra Miguez.

O acidente ocorreu com dois túneis de desvio do rio. As obras de escavação sofriam forte oposição política, o que levou ao fechamento dos túneis por comportas planas – uma decisão tomada na calada da noite, sem a ciência das autoridades políticas.

“O reservatório começou a subir. Como é feito em todas as obras, entra pela jusante e executa um plug de concreto. E então, quando o primeiro plug estava quase pronto, ouviu-se um grande ruído”, conta Miguez.

“Ninguém sabia o que havia acontecido, mas desse túnel começou a vazar muita água. Na execução do segundo plug de concreto, aconteceu a mesma coisa. A vazão foi aumentando muito e se verificou que havia um vazamento muito grande nas comportas”.

O vazamento foi contido, mas as comportas não aguentariam o curso adicional de água. Finalmente o motivo do vazamento foi desvendado. Ele conta que gases provenientes da decomposição de materiais orgânicos produziram gases explosivos que, com a pressão da água, resultaram em explosões nos plugues que estavam no início da construção. “O problema foi contornado, mas se os túneis não tivessem sido plugados, a barragem de Furnas, com 127 metros de altura, teria colapsado e arrastado a segunda maior usina do Brasil, à época”.

Barragem de Pirapora do Bom Jesus (SP): o caso de obra mais interessante

Já entre os casos de obra mais interessantes, o autor destaca o túnel construído na Barragem de Pirapora do Bom Jesus, em São Paulo, que represa águas do rio Tietê. A barragem foi construída na década de 1930, quando a cidade de São Paulo ainda era pequena.

Construída em concreto, a crista da barragem é praticamente toda ocupada por um vertedouro de superfície. “Esse reservatório tem várias aplicações e não poderia ser deplecionado”, enfatiza Miguez.

Entretanto, com o crescimento acelerado da cidade no decorrer das décadas seguintes, as chuvas em São Paulo começaram a indicar um problema grave para o reservatório.

“O coeficiente de runoff para as chuvas que passaram a incidir na cidade se alteraram muito”, conta o autor. “Isso significa que, para uma mesma chuva que caía na área de drenagem da cidade, o pico da cheia passou a ser muito maior do que se a mesma chuva tivesse incidido nessa mesma cidade décadas antes”.

Por conta disso, se instalou a necessidade de ampliação da capacidade de verter do reservatório. Mas isso não era possível. “Não se podia mexer no nível d’água do reservatório e não se podia alterar o vertedouro existente”, explica Miguez.

A solução encontrada para solucionar o problema foi inovadora: aplicar a técnica de lake-piercing, também conhecida como lake-trap. A aplicação dessa técnica foi realizada mediante a escavação de um túnel pela ombreira, dotado de comporta.

Quando a vazão a extravasar supera a capacidade do vertedor, o túnel gera acréscimo de capacidade de extravasamento do reservatório sem que o vertedouro fosse alterado. “Foi o único caso de lake-piercing no Brasil”, declara o autor.

Assista à entrevista com Flávio Miguez de Mello e conheça com mais detalhes como a técnica foi aplicada na obra:

Entrevista completa Flavio Miguez de Mello sobre o livro “Patologia de túneis hidráulicos”, concedida em 2022 (Vídeo: Reprodução/YouTube/@ofitexto)

Saiba mais sobre acidentes de túneis hidráulicos no Brasil

Sistemas subterrâneos de condução de água podem ser complexos, o que é agravado pela diversidade de condições geológicas, físicas, geométricas e ambientais. As investigações na fase de projeto dificilmente preveem todas as condições que serão encontradas durante a construção, adicionando aos túneis um elemento vulnerável a acidentes e incidentes.

Patologia de túneis hidráulicos traça um breve histórico dessas obras no Brasil e analisa as causas de acidentes e incidentes ocorridos. Revê as diretrizes de projeto e identifica os locais de escape de água.

A segunda parte da obra traz 11 cadastros detalhados de casos reais de acidentes e incidentes, com desenhos do projeto do empreendimento, descrição, dados gerais e causas do acidente; apresenta ainda as medidas de recuperação.

Confira a degustação do livro clicando aqui.

Capa do livro "Patologia de túneis hidráulicos", publicado em 2022 pela Editora Oficina de Textos

Capa do livro “Patologia de túneis hidráulicos”, publicação da Editora Oficina de Textos

Sobre o autor Flavio Miguez de Mello

Engenheiro civil, com especialização em hidráulica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e mestre em Ciência em Geologia pela mesma instituição, Flávio Miguez de Mello é referência em engenharia de barragens e hidrelétricas, acumulando mais de 50 anos de experiência. Atuou em projetos hidrelétricos em países da América do Sul, África e Europa.

Fez cursos e treinamentos nos Estados Unidos, Canadá e Portugal. Atuou como professor visitante ou convidado em diversas universidades, dirigiu associações técnicas no Brasil e no exterior. Publicou três livros relacionados à engenharia de barragens, além de trabalhos técnicos. (Com informações da Academia Nacional de Engenharia – ANE)