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Engenharia CivilGeotecnologias

WILLY LACERDA E OS COLÚVIOS

8 horas atrás
6 min de leitura

Um amigo querido, uma longa amizade

Conheci Willy Lacerda em 1972, em Berkeley. Mais precisamente, no laboratório de mecânica dos solos da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Willy, em seu programa de doutorado, estava fazendo ensaios lentos, lentíssimos, para medir adensamento secundário.

Para acompanhar os ensaios tão longos e fazer as medições, havia um colchonete encostado num canto, para passar noites ao lado dos ensaios. Pena que naquela época não havia um celular à mão para tirar uma foto e documentar a dedicação.

Uma amizade nasceu e nunca se perdeu ao longo desses mais de 50 anos.

A proposta de um livro

Anos depois, já como dirigente da Oficina de Textos, cuja prata da casa, não por acaso era Geotecnia, por volta de 2005, escrevi ao Willy e sugeri que escrevesse um livro sobre a dinâmica dos taludes tropicais.

O que me inspirou foi uma conversa em que Willy descrevia e ilustrava movimentando as mãos, os sutis e inexoráveis movimentos dos colúvios encosta abaixo. Willy transbordava sua profunda compreensão sobre o comportamento e dinâmica desses surpreendentes solos.

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Colúvios que na encosta escorregam imperceptivelmente, mesmo que aparentemente em equilíbrio. Em aparente equilíbrio graças à sucção de solos insaturados que são.

Mas a natureza não esbanja coeficiente de segurança. Ao final da temporada das chuvas, a eventual saturação pode conduzir a um escorregamento ou até a uma corrida de lama.

Colúvios porosos e insaturados que sob peso de um aterro podem resistir, mas com inundação vêm a colapsar.

Em 2006 começa a troca de mensagens:

Banner Engenharia Civil

Sent: Wednesday, July 05, 2006 11:31 AM

Subject: Lembrete

Caro Willy,

 Agora que v. prometeu escrever o livro, vou ficar lhe lembrando volta e meia.

Gostaria de ver a itemização que v. certamente já tem. Pode ser?

Em 2007 não havia avançado.

‘Date: Tue, 15 May 2007 12:12:00 -0300  ‘>’

 Caro Willy,

Como vai nosso livro? Espero que em franca “escitura”…

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E sua resposta,

Sho

aos trancos e barrancos.

Preciso de prazos!

Em 2008 tampouco foram feitos avanços.

Sent: Tuesday, January 08, 2008 12:25 PM

Querido Willy,

Sinto que 2008 é um ano bom para o nosso Dinâmica dos Taludes Tropicais.

O que v. acha?

 Respondido…

Sho

 Feliz 2008 para você, e que possamos cumprir o prometido.

Em 2015, quase 10 anos após a semente inicial do livro, veio um texto de abertura, planejando o livro em três partes.  

ESTABILIDADE DE TALUDES EM REGIÕES TROPICAIS

Parte I – Mecanismos de instabilização de encostas (casos catastróficos, chuvas, raios e manchas solares)

 Parte II – Geotecnia de solos residuais (propriedades físicas, hidráulicas e mecânicas)

 Parte III – Aspectos de engenharia: prevenção, manutenção e remediação (casos de engenharia)

A introdução escrita à época, é reproduzida a seguir.

Introdução da primeira redação

Os meios de divulgação e consequentemente o grande público tem a atenção despertada para as encostas quando da ocasião de chuvas intensas. As chuvas intensas, em regiões tropicais e em particular no Sudeste Brasileiro, estão associadas a escorregamentos de taludes e de encostas naturais. Quando estes escorregamentos ocorrem em larga escala, com pesadas perdas humanas e materiais, são incluídos no grupo “Desastres Naturais”. No entanto, o nome é inapropriado, pois os fenômenos são realmente naturais, mas o “Desastre” ocorre em decorrência do uso do solo. De fato, habitações construídas em áreas de risco são vulneráveis aos fenômenos naturais, sejam eles escorregamentos, tsunamis, erupções vulcânicas, nevascas, tornados, etc. Há uma série de práticas de boa Engenharia que dispõe sobre os recursos tecnológicos para minimizar danos nessas situações, e deles falaremos na terceira parte deste livro.

Este livro trata especificamente de escorregamentos e fenômenos de transporte de massa por ocasião de chuvas excepcionais. Nos trópicos eles estão associados às rochas e aos produtos de decomposição da rocha devidos ao clima quente e úmido. A infiltração da água de chuva e a contribuição de aquíferos artesianos são as principais causas dos escorregamentos.

Na segunda parte do livro trataremos das propriedades dos solos residuais tropicais, especialmente aqueles do Sudeste Brasileiro.

Mas, com que frequência ocorrem as chamadas “chuvas excepcionais”? Que outros fatores, além da chuva, contribuem para a simultaneidade de escorregamentos num evento de chuva excepcional?

Chamou-nos a atenção a distribuição ao longo dos anos dos eventos de chuva extrema. Só após as catástrofes de 1966, no Rio de Janeiro, e em 1967, no Rio de Janeiro e na Serra das Araras e em Cubatão, é que os técnicos de Geotecnia passaram a dar importância a esses eventos. De fato, a densidade populacional do Brasil era muito menor na 1960, e, portanto, a ocupação de áreas de risco era menor. As consequências dos escorregamentos fatais eram diluídas no noticiário usual.

Desde 1967, novas ocorrências impactantes ocorreram, na região do Rio de Janeiro, em 1982, 1988, 2008, 2010 e 2011. Em Santa Catarina, em 2008.

Duas icônicas fotos ilustravam o capítulo.

Escorregamentos e corrida de detritos. Serra das Araras/1967
Escorregamentos e corrida de detritos na Serra das Araras, 1967, que soterraram a Usina Hidrelétrica de Fontes, do Sistema Light. A origem da maioria dos escorregamentos se deu no topo das encostas (Foto de Jones, 1973).
Escorregamentos nas encostas de Nova Friburgo e Terezópolis
Escorregamentos similares ocorreram aos milhares nas encostas de Nova Friburgo e Terezópolis, em 2011 (Foto de Willy Lacerda)

Finalmente, o livro

Em 2025, 20 anos após sua primeira semente, publicava-se Estabilidade de Taludes em Solos Residuais e Coluvionares: teoria e prática, por Willy Lacerda e Leonardo Becker, distribuído às livrarias em janeiro de 2026. Estamos felizes, parabéns Willy e Leonardo!

Estrutura do livro

Na versão final da obra mantém a divisão em três partes:

Parte I: nesta parte são descritos as rochas e os ambientes geológico e geomorfológico comuns nas serras do Sul e do Sudeste do Brasil, onde acontecem grande parte dos nossos problemas de encostas, bem como as características e o comportamento dos solos mais frequentemente envolvidos.

Parte II: aqui são apresentados os tipos de movimentos de massa mais comuns na realidade brasileira e suas causas, juntamente com os métodos de análise de estabilidade mais empregados.

Parte III: e, por último, o foco está na extensa problemática dos colúvios e nas soluções de estabilização de taludes, com destaque para a instrumentação, as situações práticas, os casos de obras e a experiência dos autores.

construção civil geotecnia

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