A inovação na Engenharia vai tirar o emprego do profissional?

Aldo Dórea Mattos fala sobre a inovação na Engenharia, possíveis fracassos e a importância do profissional na tomada de decisões.

Já perceberam que vaticinam a extinção do engenheiro a cada ciclo tecnológico por que passa o mundo? Eu me lembro de ouvir profecias de que a calculadora programável iria extinguir o calculista e o AutoCad eliminaria o projetista, mas nada disso aconteceu.

Agora, com o advento da Indústria 4.0, ou Nova Revolução Industrial, de novo o fantasma do aniquilamento dos engenheiros vem à tona. Mas será que a inovação vai tirar mesmo o emprego do engenheiro? Para mim, a resposta é não.

Inovação na Engenharia

Em primeiro lugar, é preciso desmistificar o termo inovação: a raiz do vocábulo é novo, e não tecnologia. Muitos colegas creem piamente que inovação tem a ver com parafernália tecnológica, como drones que trazem um chip para um operário com óculos de realidade aumentada.

Isso até pode acontecer, mas o que está no âmago de inovar é trazer ares novos à forma tradicional de produzir, e isso não necessariamente elimina a figura do bom e velho engenheiro com duas canetas espetadas no bolso da camisa.

O que esse cinquentão pode fazer como ninguém é orientar a aplicação de tanta ferramentadesign thinking, SEO, realidade aumentada, realidade virtual, machine learning, blockchain ao gerenciamento da obra, porque no fundo o que impera são os fundamentos da Engenharia.

Por mais que surjam ferramentas de programação, os fundamentos permanecem os mesmos. Quando, por exemplo, aparece uma startup trazendo um processo de apropriação de dados de campo, eu não vejo um engenheiro perdendo espaço.

Eu vejo, sim, um engenheiro recebendo uma informação confiável, rastreável, quase instantaneamente, sem garranchos e sem mancha de café. Para quê? Para tomar uma decisão do que fazer com o planejamento da obra! Vai abrir mais uma frente de serviço? Autorizar hora extra para algumas equipes? Dobrar o turno? Mobilizar mais equipamentos? Por que tanta flutuação de produtividade nas últimas semanas?

A decisão (ainda) é do homem. Se tem algo que o robô ainda não aprendeu é liderar pessoas.

Mas pode haver fracasso na inovação?

O interessante artigo “Por que as empresas falham ao inovar?”, de Gláucia Alves Guarcello, de 2018, aponta sete razões pelas quais o processo de inovação é moroso ou pouco eficiente em muitas empresas. Faço meus comentários sobre cada uma delas a seguir:

Conceitos como inovação, startup, construtech e venture capital são novos. No ambiente das construtoras e incorporadoras, estamos assistindo a uma mobilização das empresas, é verdade,
porém sem um modelo de sucesso definido.

Enquanto algumas empresas tratam inovação de forma estruturada – com consultoria externa e capacitação de pessoas, por exemplo –, outras buscam atabalhoadamente não perder o bonde da história – delegando a inovação a setores específicos e funcionais, como TI.

Eu li esses dias que as pessoas só mudam por dois motivos – dor ou amor. No caso das pessoas jurídicas, a dor é mais sentida, porque vem sob a forma de perda de clientes, perda de competitividade e êxodo de bons profissionais. Na escala de aversão a risco, a construção civil figura nos primeiros lugares.

Sempre foi uma indústria morosa, de processos tradicionais e resistente a mudanças. Eu até entendo a razão: projetos longos, com grandes contingentes de pessoas, enorme cadeia de suprimento e múltiplos stakeholders exercem um peso forte contra a adoção de medidas de mudança.

No entanto, inovação pode ser implementada de maneira gradual ainda que sistêmica, sem abalar tanto as fundações da empresa e suas crenças arraigadas.

O que a autora aponta nesse fator é a desvalorização do erro como fonte de acerto. Nisso eu concordo. De todos os lugares onde trabalhei (não foram poucos), só um conjunto reduzido de líderes e organizações prezavam ideias dos funcionários e induziam a geração de iniciativas próprias.

O que hoje se chama de intraempreendedorismo era antes rebatido com a sumária ordem de “deixe de ficar pensando e vá fazer seu trabalho”.

Aqui eu faço um paralelo com a moda da qualidade nos anos 1990. Uma das primeiras tarefas de quem desejava obter a certificação ISO-9000 era apontar o “responsável da direção”, o popular RD.

O objetivo era claro: garantir que o processo não era uma mera iniciativa departamental, mas um compromisso bem definido do alto escalão da empresa.

Na inovação, a coisa é bem parecida: se ela não contar com o comprometimento da esfera mais alta e constar da estratégia empresarial, pode esperar seis meses para tudo cair no esquecimento. Lembra-se das modas de 5S e reengenharia?

Eu discordo do mito de que inovação não se controla. Até compreendo o que está por trás dessa máxima, porém em nosso mundo da construção um mínimo de controle há que se impor. Controle no sentido de processo, de rotina.

Nossas organizações são grandes e espalhadas. A falta de um sistema de gestão definido pode fazer com que as fagulhas da inventividade só gerem fumaça, e não fogo.

O mindset (detesto essa palavra, mas vou deixá-la aí) mudou. Inovação precisa ter um caráter de transversalidade na empresa, todo mundo pensando junto. Quem inventou que o departamento de TI é que precisa abrigar a inovação? Inovação está em toda parte.

Numa construtora, associa-se o termo com a utilização de chips em paletes de cerâmica, mas inovação pode se manifestar até na redução de perda de comida no refeitório.

Abram as portas, derrubem os muros. Eu acho até que todo head (outra palavra que detesto) deveria fazer um curso de mediação.

Na construção civil pensamos em tudo sendo feito internamente, talvez só precisando contratar fora os consultores especializados de fundação e concreto.

O espírito de trazer tudo para dentro atrapalha o florescimento da inovação. Imagine a diferença entre utilizar uma startup externa, enxuta, ágil e acostumada a tentativa e erro e recrutar esses mesmos profissionais para trabalhar na empresa.

Vai ser um terror: RH, teste psicotécnico, entrevistas, compliance, jurídico, CLT, sindicato, CTPS, FGTS, INSS, mil formulários. Dá ânsia só de pensar. Quer implantar inovação? Seja simples, recorra a startups.

Você concorda com meus pontos de vista?


Essa matéria foi retirada do livro Gestão de custos de obra, de Aldo Dórea Mattos, publicação da Editora Oficina de Textos.

Foto de Aldo Mattos, homem branco, de meia idade, barba rala e cabelo grisalho. Ele veste um terno cinza e sorri para a câmera.

Aldo Dórea Mattos é Engenheiro Civil e Advogado (UFBA), consultor de planejamento e gerenciamento de obras para diversas empresas públicas e privadas e autor dos livros Como preparar orçamentos de obras, Planejamento e controle de obras e Gestão de custos de obra.


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Capa do livro "Gestão de custos de obra - 2ª ed.", publicação da Editora Oficina de Textos

Capa do livro “Gestão de custos de obra – 2ª ed.”, publicação da Editora Oficina de Textos