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Geografia

O estudo dos climas no Brasil: entrevista com Francisco Mendonça

junho 17, 2013
7 min de leitura

“Moro num país tropical, abençoado por Deus, e bonito por natureza, mas que beleza”. Quase todas as pessoas do Brasil já escutaram essa música, composta por Jorge Ben Jor e cantada por Wilson Simonal, mas poucas imaginam que essa afirmação sobre o clima do País, aceita de maneira geral pela sociedade, está apenas parcialmente correta.

O Brasil possui uma grande variedade de climas, considerando a extensão do território (8,5 milhões de km²), os quais podem ser divididos em: Equatorial (presente na Amazônia, ao norte de Mato Grosso e a oeste do Maranhão), Tropical (presente no Brasil Central), Tropical de Altitude (São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo), Tropical Atlântico (litoral do Rio Grande do Norte ao Paraná), Subtropical (presente no sul de São Paulo e na maior parte do estado paranaense, de Santa Catarina e Rio Grande do Sul) e Semiárido (interior do Nordeste).

Mapa do Brasil com as divisões dos climas: equatorial no Norte, tropical no Centro-Oeste e parte do Nordeste e Sudeste, Semiárido do meio do Nordeste, Tropical de Altitude no meio do Sudeste, Tropical Atlântico no litoral do Sudeste e do Nordeste e Subtropical no Sul.

(Fonte: Significados)

Para explicar um pouco mais sobre estes e outros aspectos climáticos brasileiros, convidamos Francisco Mendonça, doutor em Clima e Planejamento Urbano, professor titular da Universidade Federal do Paraná (UFPR), pesquisador 1B do CNPq, consultor da CAPES e FAPESP e um dos autores do livro Climatologia: noções básicas e clima do Brasil, para uma entrevista ao Comunitexto. Confira abaixo!

Comunitexto (CT): No livro Climatologia: noções básicas e clima no Brasil é mencionado que o estudo dos climas se iniciaram tardiamente. Quando começaram os primeiros estudos no País e como eles contribuíram para o avanço dos conhecimentos sobre as características do País na época?

Francisco Mendonça (FM): Não foi somente no Brasil e nem somente no campo da climatologia que o estudo dos climas se iniciou tardiamente em relação ao que já se realizava na Europa e Estados Unidos. Este fato decorre, sobretudo, do processo de colonização que se desenvolveu nas Américas, África e Ásia entre os séculos XVI e XIX, com forte expressão ainda no XX; uma vez independente politicamente, boa parte dos países ainda se mantém presa economicamente às grandes econômicas do mundo globalizado. A não permissão, ou mesmo proibição, do desenvolvimento do conhecimento acadêmico-científico no “Novo Mundo” foi fundamental para garantir a manutenção do poder nas então metrópoles, afinal, “conhecimento é poder”.

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O estudo científico dos climas no Brasil foi iniciado somente no final do século XIX no âmbito das atividades do Observatório Imperial no Rio de Janeiro. É certo que durante os séculos anteriores o conhecimento das condições atmosféricas necessário à produção agrícola e organização das cidades teria sido iniciado com base no conhecimento vernacular das populações autóctones e nos relatos dos viajantes europeus que visitaram o país naquele momento.

As publicações de caráter científico dos climas do Brasil tiveram, sobretudo, uma perspectiva descritiva e quantitativa comuns à ciência da época e foram publicadas inicialmente na França e Inglaterra; as obras de Frederico Draernet, Henrique Morize e Delgado de Carvalho são as pioneiras. A estas seguiram-se outras que tiveram o papel de “descobrir” os climas do País, ou seja, iniciaram o processo de estudos e pesquisas sobre a natureza do território brasileiro, campo do conhecimento de fundamental importância para a produtividade econômica e para a organização do espaço.

CT: Quais são as pessoas que se tornaram referências por seu estudo dos climas no Brasil?

FM: De maneira geral, podemos identificar dois grandes períodos da climatologia brasileira elaborada no âmbito da Geografia, posto que há um outro ramo de grande relevância e complementar a este, que é aquele da Meteorologia, pertencente ao âmbito das Ciências Físicas.

O primeiro período ou fase é aquele marcado por uma perspectiva descritiva, quantitativa e em conformidade com uma abordagem estática ou separativa da atmosfera; nele destacam-se os estudiosos supramencionados e também Sampaio Ferraz, Adalberto Serra, Leandro Ratisbona e Soares Guimarães. Este período predominou do final do século XIX a meados do XX.

O segundo período ou fase é marcado pela abordagem dinâmica da atmosfera e vai além da descrição, inserindo a perspectiva analítica, na qual tomam cada vez mais destaque os centros de ação e os sistemas atmosféricos definidores dos tipos de tempo e dos climas, condição paradigmática já lançada por autores da primeira fase (especialmente Serra e Ratisbona). Nesse período destaca-se inicialmente Lisia Bernardes e, posteriormente, Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro, que foi fortemente influenciado pelo pensamento dos franceses Maximilian Sorre e Pierre Pedelaborde.

A climatologia dinâmica é atualmente predominante na ciência geográfica do clima e foi consideravelmente enriquecida com o advento das tecnologias espaciais (imagens de satélite) após os anos 1960; um conjunto de pesquisadores e seus laboratórios se destacam neste campo dentro da ciência brasileira.

CT: Quando surgiram os primeiros cursos em climatologia no País?

FM: O estudo científico dos climas no Brasil surgiu, de forma esparsa, no final do século XIX (Observatório Imperial) e início do século XX nas primeiras faculdades de Agronomia e de Engenharia. Todavia, passou a ser ofertado de forma contínua como disciplina (ramo da Geografia Física) com a criação dos primeiros cursos de Geografia nas Universidades de São Paulo, do Rio de Janeiro, do Paraná, da Bahia e de Pernambuco, por volta da década de 1930.

Por cerca de quase trinta anos o estudo da atmosfera brasileira, via climatologia, foi desenvolvido somente no âmbito dos cursos de Geografia, posto que o primeiro curso de Meteorologia somente foi criado no final dos anos 1950.

A disciplina de Climatologia consta dos currículos de todos os cursos de Geografia no Brasil desde então; mas há também a Agroclimatologia nos cursos de Agronomia, a Meteorologia nos cursos de Física e, de forma autônoma, aproximadamente uma dezena de cursos independentes de Meteorologia no País.

CT: No livro também são mencionados os impactos do crescimento tecnológico na climatologia. Poderia falar um pouco mais sobre isso?

FM: Por um longo tempo, os equipamentos de medição dos elementos atmosféricos (temperatura, umidade, pressão, ventos etc.) utilizados nas estações meteorológicas brasileiras eram todos importados, especialmente da Alemanha, Estados Unidos e Japão. Tais equipamentos eram, em geral, aferidos para registrar as condições atmosféricas daqueles países (clima temperado), e não é de todo equivocado pensar que não eram aferidos para registrar a atmosfera brasileira (clima tropical). Reside aí, certamente, um dos principais problemas da falta de confiabilidade das previsões atmosféricas até bem recentemente.

Todavia, com o desenvolvimento econômico brasileiro pós década de 1960, e também da ciência, a produção de equipamentos de registro meteorológico no próprio País, além da maior atenção à aferição dos importados, favoreceu o registro mais fiel dos elementos do clima no Brasil; os estudos ganharam, paulatinamente, maior confiabilidade.

Após a mesma década, o marcante avanço observado nos diferentes sistemas de detecção remota das características da superfície terrestre – era dos satélites – impulsionou de maneira revolucionária o conhecimento dos sistemas naturais e da ocupação da superfície do planeta.

O conhecimento da atmosfera da Terra e, por conseguinte, dos climas, foi fortemente dinamizado nas últimas quatro décadas, tanto com o registro simultâneo da dinâmica do ar quanto na total abrangência da superfície do planeta just in time.

A tecnologia impulsionou sobremaneira o refinamento do tratamento do clima nas diferentes e mais detalhadas escalas espaciais e temporais dos fenômenos atmosféricos; muitas sociedades passaram a atuar de forma mais preventiva que remediativa aos impactos do clima e do tempo atmosférico, condição derivada diretamente dos benefícios do emprego da tecnologia no estudo da atmosfera.


Saiba mais sobre climas no brasil

Climatologia: noções básicas e climas do Brasil, de Inês Moresco Danni-Oliveira e Francisco de Assis Mendonça, é uma obra de referência que reúne conceitos básicos de climatologia e meteorologia, com destaque para os domínios climáticos e sistemas atmosféricos que regem tempo e climas do continente sul-americano e Brasil.

Confira a degustação da obra clicando aqui.

“Climatologia: noções básicas e climas do Brasil”, publicação da Editora Oficina de Textos

“Climatologia: noções básicas e climas do Brasil”, publicação da Editora Oficina de Textos

Com um panorama sobre o clima, definições didáticas das diferenças entre climatologia e meteorologia, o resgate do papel histórico das classificações, discussões sobre os modelos de classificação climática da terra e fenômenos climáticos como efeito estufa, desertificação, El Niño e La Niña, este livro é ideal para estudantes e profissionais de climatologia que desejam se aprofundar nos conceitos fundamentais desta área.

Sobre os autores Francisco Mendonça e Inês Moresco Danni-Oliveira

Francisco de Assis Mendonça é mestre em Geografia Física, doutor em Clima e Planejamento Urbano. Atualmente é professor titular da Universidade Federal do Paraná (UFPR), pesquisador 1B do CNPq, consultor da CAPES, FAPESP e FAPESC. É professor colaborador do mestrado em várias universidades do País. Atua nas áreas de climatologia, epistemologia da geografia, ambiente urbano e geografia da saúde.

Inês Moresco Danni-Oliveira é mestre e doutora em Geografia Física; ex-professora da UFPR. Tem experiência na área de Geociências, com ênfase em Climatologia Geográfica, atuando principalmente no estudo dos climas urbanos, poluição do ar e saúde, acidentes climáticos, impactos socioambientais e variabilidade climática.

climas do brasil climatologia

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